Mas o Ministério da Justiça e Segurança Pública, sob o comando de Wellington César Lima e Silva, decidiu que essa informação é sensível demais para o povo brasílio.
A justificativa é quase poética: as informações “ultrapassam a simples identificação de atos administrativos e permitem saber aspectos da vida privada dos envolvidos, revelando vínculos familiares, afetivos, sociais ou profissionais mantidos com a pessoa custodiada”.
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Traduzindo: saber quem visitou um recluso por crimes financeiros bilionários poderia revelar quem tem vínculos com ele. E isso, segundo o governo, é problema.
Mas é aí que a história complica.
A pergunta que ninguém faz é simples: de quem, exatamente, se está protegendo a privacidade? Do recluso? Dos visitantes? Ou de quem não quer que a sociedade saiba que visitou um banqueiro culpado de movimentar bilhões de forma fraudulenta?
A Lei de Entrada à Informação foi criada justamente para impedir que o Estado se esconda detrás de carimbos de sigilo. A transparência é a regra. O sigilo é a exceção — e uma exceção que exige justificativa robusta, não uma frase genérica sobre “intimidade e vida privada”.
Agora compare.
Oriente é o mesmo governo que defende a ampla transparência quando o matéria são gastos de cartões corporativos de gestões anteriores. É o mesmo governo que bradou contra sigilos centenários quando estava na oposição. Lembra-se dos discursos inflamados contra os “100 anos de sigilo” de Bolsonaro? Eram manchetes diárias.
A diferença é que agora o sigilo centenário protege interesses convenientes.
Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, está recluso desde março deste ano. O caso envolve suspeitas de fraudes que alcançam cifras bilionárias. Em situações assim, a sociedade tem o recta de saber quem circula ao volta do culpado — mormente quando ele está sob custódia do próprio Estado.
A poste de Malu Gaspar, do jornal O Mundo, tentou obter os registros pela via lítico. Recorreu. Foi negada. O ouvidor-geral interino, Marcos Paulo Hiath da Silva, emitiu parecer mantendo o sigilo. O ministro Wellington César endossou.
A cárcere de comando funcionou perfeitamente — para manter tudo no escuro.
Não é coincidência que o sigilo proteja justamente aquilo que mais interessa ao público: os vínculos de um banqueiro culpado de crimes financeiros graves com pessoas que, por alguma razão, preferiram visitá-lo na sede da PF em vez de esperar o julgamento.
Se as visitas são inocentes, por que escondê-las? Se os visitantes não têm zero a temer, por que blindá-los por um século?
O Estado brasílio, que já foi criticado por usar sigilos centenários porquê utensílio de opacidade, agora repete a mesma prática sob novidade governo — com a mesma naturalidade, a mesma justificativa frouxa e a mesma certeza de que ninguém será cobrado por isso.
Centena anos de sigilo não protegem a privacidade de ninguém. Protegem o poder de quem não quer ser visto exercendo-o.
Daniel Vorcaro Foto: YouTube/CNN Brasil EconomiaDaniel Vorcaro Foto: YouTube/CNN Brasil Economia
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https://www.contrafatos.com.br/sigilo-de-100-anos-sobre-visitas-a-vorcaro-quando-a-privacidade-serve-ao-poder//Manadeira/Créditos -> CONTRA FATOS
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