O mecanismo é velho. É manjado. E, ainda assim, funciona — pelo menos para quem quer crer.
Em vez de responder sobre as evidências reunidas pela Polícia Federalista a saudação da relação de Lulinha com a lobista Roberta Luchsinger e sobre os pagamentos feitos por ela ao seu ex-chefe de gabinete, Lula fez o que sabe de cor: deslocou o matéria para a Lava Jato, para os 580 dias de prisão, para Sergio Moro, para a prelo que supostamente mentiu sobre ele.
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É uma operação retórica que troca uma pergunta objetiva por uma narrativa emocional. E Lula a executa com a naturalidade de quem respira.
Mas há um pormenor.
Lula declarou, diante das câmeras, que “nunca viu” Roberta Luchsinger. Que não sabe quem ela é. Que não a conhece. “Ela nunca esteve perto de mim”, afirmou, com a fé inabalável de quem acredita que a verdade se prega à sua vocábulo.
O problema é que a própria Roberta fez questão de postar diversas fotos ao lado de Lula nas redes sociais. As imagens estão lá, públicas, acessíveis a qualquer pessoa com um celular e dois minutos de curiosidade. Alguma coisa no mínimo constrangedor para dois personagens que, segundo o presidente, nunca se cruzaram.
E é aí que a história complica.
Porque essa não é a primeira vez. Não é a segunda. Não é a terceira. Desde o escândalo do Mensalão, Lula construiu uma curso paralela dentro da própria curso política: a de presidente que nunca sabe de zero. Ele nunca viu o esquema de compra de votos no Congresso. Nunca soube do tríplex em Guarujá. Nunca conheceu as engrenagens da depravação que operavam debaixo do próprio nariz. Sempre terceirizou responsabilidades com a habilidade de quem terceiriza contratos.
A pergunta que ninguém faz é simples: até quando é plausível que o patrão não saiba de absolutamente zero que acontece ao seu volta?
Qualquer pessoa minimamente informada reconhece o padrão. Surge a denúncia. Lula nega saber os envolvidos. Aparecem as provas — fotos, documentos, transações. E logo o oração muda: passa de “não conheço” para “sou vítima de perseguição”. O ciclo se repete com a regularidade de um relógio.
“Malandro é igual em qualquer lugar do mundo”, disse Lula sobre Roberta Luchsinger. A frase é irônica por si só — vinda de um presidente que já foi sentenciado, recluso e depois absolvido por questões processuais, não exatamente por valor.
Não é coincidência que essa estratégia sempre apareça quando o cerco aperta. É um revérbero pavloviano: confronto gera vitimização, evidência gera negação, pergunta direta gera resposta emocional. É a retórica de quem aprendeu que, no Brasil, uma boa história vale mais do que qualquer prova.
Agora compare: se qualquer outro político brasílio dissesse diante das câmeras que “nunca viu” uma pessoa com quem aparece em múltiplas fotografias públicas, a reação seria imediata. A prelo cairia em cima. Os adversários fariam piquete. As redes sociais transformariam a cena em meme eterno.
Com Lula, o tratamento é outro. A patranha dita com fé ganha ares de verdade selecção. O safadeza vira carisma. A incongruência flagrante vira “estilo político”.
A marca registrada de Lula não é a retórica popular, nem o carisma sindical, nem a habilidade política. É a capacidade de olhar para uma verdade que salta aos olhos de todos — e jurar, sem piscar, que não consegue enxergá-la.
Lula e Roberta Luchsinger em dezembro de 2021. Foto: @roberta.luchinger/reprodução
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