Autora das primeiras reportagens sobre o Primeiro Comando da Capital (PCC), a jornalista Fátima Souza nunca deixou de investigar o grupo. Depois 28 anos das primeiras matérias sobre a partido, Fátima Souza segue apurando e produzindo uma das investigações mais abrangentes de todo o jornalismo policial já publicadas no Brasil. Com fontes dentro e fora do sistema prisional, ela reconstrói a trajetória de um poder paralelo que nasceu nas celas e se espalhou por todos os cantos do país — e, hoje, do mundo.
Em entrevista ao Jornal Opção, Fátima revela bastidores de sua apuração e traça um retrato inquietante de uma vez que o violação organizado se enraizou nas estruturas do Estado e da economia. Com fala direta, sem meias palavras, ela descreve um cenário em que o PCC se tornou uma potência multinacional do violação, com ramificações em portos, empresas, apostas on-line e até instituições públicas.
A repórter também aponta os erros de sucessivos governos, que ignoraram os sinais de desenvolvimento da partido e, ao tentar desarticulá-la, acabaram contribuindo para sua expansão. “O PCC é um gigante que tomou essa proporção por inoperância do Estado”, afirma. Nesta conversa, Fátima Souza analisa o que sustenta esse predomínio, os riscos de uma disputa de poder interna e o que o Brasil ainda se recusa a enxergar sobre o violação que se tornou sistema.
Herbert Moraes — Em 1997, uma vez que você descobriu a existência do PCC a partir de uma rebelião na Morada de Custódia de Taubaté?
Era um período em que os jornais mandavam repórteres para as portas das cadeias quando havia rebeliões. Hoje não há mais rebeliões em São Paulo, porque o Marcola, líder do PCC, fez um conformidade com o governo do Estado. Mas em 1997, eu estava muito acostumada a fazer essas matérias, quando fui enviada pela TV Bandeirantes para tapar uma rebelião no interno de São Paulo, na Morada de Custódia de Taubaté.
Quando cheguei lá, percebi que era uma rebelião muito dissemelhante das que eu estava acostumada a ver. Geralmente, as rebeliões eram uma bagunça, uma correria; os presos invadiam áreas restritas, subiam nos telhados, destruíam o presídio, aproveitavam a distração para matar seus desafetos.
Ali, a rebelião era organizada. Tinha um recluso que dava ordens, dizia quem deveria permanecer onde — seu sobrenome era Macalé, me disse um agente penitenciário. Os presos gritavam palavras de ordem, brandiam lençóis com inscrições de “queremos melhor tratamento, queremos um jumbo mais robusto, etc.” [Jumbo é o carregamento de alimentos e bens pessoais que as famílias são autorizadas pelo Estado a levar aos seus parentes presos quando vão visitá-los.]
O post “O PCC montou um predomínio sob o nariz do estado, que continua fingindo que ele não existe”, diz Fátima Souza, autora das primeiras reportagens sobre o PCC apareceu primeiro em No Meio do Poder.
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