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A novidade veio na pergunta — não na resposta.
A jornalista Maria Cristina Fernandes, do Valor Econômico, colocou o dedo na ferida: se o ministro enxerga tantos excessos na Lava Jato, por que nunca aplica a mesma métrica ao sindicância do golpe? Enfim, a delação do coronel Mauro Cid teve cinco versões. O militar ficou três meses recluso, foi solto, fez combinação, voltou para a prisão. Uma delação de idas e vindas que, em qualquer outra condição, provocaria indignação generalizada nos corredores do STF.
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Mas não provocou. Não em Gilmar.
E a resposta do ministro foi reveladora — pelo que disse e, principalmente, pelo que evitou expor.
Gilmar desconversou. Disse que participou dos julgamentos da Lava Jato e que agora acompanha o caso do Banco Master, mas que a questão do golpe ficou na Primeira Turma. Ele exclusivamente “acompanhou pelos jornais”. E completou: “Não tenho a visão de que cá tenha havido abusos na investigação.”
Repita lentamente: cinco versões de uma delação. Prisão, soltura, novo combinação, novidade prisão. E o ministro que passou anos denunciando abusos processuais da Lava Jato “não tem a visão” de que houve excessos.
Agora compare.
Quando os métodos eram aplicados contra aliados do PT, Gilmar via autoritarismo em cada vírgula. Cada transporte coercitiva era um atentado à Constituição. Cada delação premiada era um instrumento de tortura institucional. O ministro dedicou votos, entrevistas e manifestações públicas a denunciar o que chamava de “estado policial”.
Mas quando os mesmos métodos — ou piores — são usados contra adversários do governo atual, o ministro descobre uma súbita simplicidade intelectual. Não acompanhou de perto. Estava em outra turma. Só leu nos jornais.
É uma conveniência estupendo.
A pergunta que ninguém faz é simples: se o problema sempre foi o método — a prisão para forçar delação, as versões mutantes, a pressão institucional sobre o réu —, por que o método só incomoda quando as vítimas são de um lado do espectro político?
Gilmar Mendes é, sem incerteza, um dos ministros mais inteligentes da história do STF. E justamente por isso, sua seletividade é mais grave. Não se trata de ignorância. Trata-se de escolha. Uma escolha sobre quais abusos merecem indignação e quais merecem silêncio cúmplice.
O guardião da Constituição que só guarda quando lhe convém não é um guardião. É um jogador.
E o jogo, neste caso, tem um preço: a credibilidade de quem deveria ser a última trincheira contra o vontade — venha ele de onde vier.
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https://www.contrafatos.com.br/gilmar-mendes-e-a-arte-de-enxergar-excessos-apenas-onde-convem//Natividade/Créditos -> CONTRA FATOS
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