Para que a increpação avance, são necessárias boas doses de hipocrisia, desfaçatez e fraqueza de um povo. Dizem que, quando Winston Churchill finalmente foi chamado a ser primeiro-ministro britânico, sendo praticamente um dos poucos políticos daquela pátria a notar o transe nazista e comunista desde a manjedoura dessas ideologias, ele teria entrado no táxi do lado de fora do Parlamento, com os olhos marejados, e dito ao motorista: “Espero que não seja tarde demais”.
Os britânicos, em seguida uma primeira guerra dolorosa, custosa, sangrenta e psicologicamente danosa, não conseguiam enxergar uma vez que o enfrentamento moral e político a novos déspotas poderia trazer silêncio duradoura. Em seguida testemunharem uma exemplar do inferno em 1914, eles achavam que seria melhor negociar com o demônio, e ceder benesses e direitos, do que percorrer o risco de um novo tour nas trevas. O que Churchill via com transparência impressionante era que negociar liberdades em troca de favores de submissão não era garantia de silêncio, era antes escravidão com retóricas e paredes enfeitadas.
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O século 20 passou por uma tentação específica que estamos enfrentando agora. A tentação do conformismo com o mal; não são poucos os que prefeririam — assim uma vez que Neville Chamberlain — negociar com o demônio ao invés de enfrentá-lo; esses, outrora apoiados numa esfarelante “pundonor diplomática”, acreditavam que Hitler e Stálin eram confiáveis para negociações, que, quando fossem pesadas as ânsias ideológicas dos ditadores e os acordos por eles firmados, os déspotas escolheriam a cortesia do trato ao progressão de suas agendas. Um misto de ingenuidade e estupidez untada com fraqueza e canalhice.
O povo não deve responsabilizar em tiranos
Déspotas, tiranetes e autoritários não são confiáveis em nenhum nível e missão — e, se eu preciso lembrar alguém disso, essa pessoa só pode ser um completo idiota. As estratégias deles são somente duas: forçarem as regras para servirem a seus propósitos; ou negarem as regras existentes em nome de um suposto muito maior, que basicamente trata-se da sua agenda ideológica. Ditadores não recuam, tiranos não hesitam em emudecer opositores, seja pelo fuzil, pela toga ou pela retórica midiática, seja por qual for o método, eles não retrocedem. Um ditador só para quando é enfrentado e destituído. Essa é a prelecção do século 20 que precisamos lembrar agora.
Enquanto a sombra do leviatã avança sobre o Brasil, fazendo-se notar por seus odores, uma poviléu de hipócritas não esconde mais suas opções pela preterição. Os covardes, por sua via, migram suas posições entre a sátira velada e o consentimento crédulo. Caminham sem olhar para cima para não verem o sol sendo tapado, fingem não sentir a trevas proceder e o ar rarear. Arrumam sempre uma desculpa para os espaços cada vez menores, em vez de enfrentar quem os encurta. Ao contrário dos britânicos, não espere que surja um Churchill para se opor de dentro da máquina à estupidez de sua classe. A questão cá em terras brasileiras é que a máquina já é deles. A única maneira efetiva é uma oposição real da população; mas, para isso, é necessária uma conscientização do problema real que enfrentamos — e aí está o papel dos conservadores e liberais brasileiros: dar um tapa na rostro dos adormecidos, tirar do torpor os relapsos.
Porquê rejeitar as ditaduras
Não esperem suporte para isso, até o momento que Hitler cutucou os quintais dos britânicos, muitas pessoas pediam prudência, calmaria e as suas xícaras de chá para resolverem todos aqueles problemas com palavras e biscoitos Digestive. Ontem, perdemos a liberdade na internet, amanhã será nas praças, depois em nossos jardins, sacadas, salas, quartos e banheiros, e quando o Estado não deixar nem mais a possibilidade da incerteza interna, aí nem mesmo a diplomacia será provável. Por fim, todos concordarão, nem mesmo a vocábulo liberdade fará mais sentido.
Parece tenebroso, não é? Talvez me chamem até de “apocalíptico” e “sensacionalista”, mas a história humana é marcada, basicamente, pela capacidade de alguns de notarem certos padrões gerais de ação; e, no terreno da tirania, vá por mim, trocaram-se as embalagens e as vestimentas dos bonecos, mas o jogo ainda é o mesmo. Mas pode ser que eu seja um mero catastrofista. Porém, por via das dúvidas, olhe pela janela hoje antes de dormir e deixe a pólvora seca. Pode ser que mais uma vez a diplomacia falhe, que os acordos dos especialistas não corrijam os autoritários, e, se isso intercorrer, pode ser que você tenha que vestir seu coturno.
https://revistaoeste.com/cultura/a-um-povo-acovardado-so-resta-a-submissao//Natividade/Créditos -> REVISTA OESTE







