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Comerciantes são forçados a comprar de fornecedores indicados pelo tráfico
A dinâmica é direta: grupos armados entram em estabelecimentos e determinam de quem os donos devem comprar mercadorias. A prática elimina a concorrência, encarece produtos essenciais e deteriora a qualidade do que chega às prateleiras.
Em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, um supermercado precisou suspender a venda de ovos depois ser obrigado a comprá-los de distribuidores ligados ao tráfico. Uma funcionária, que não quis se identificar, revelou a disparidade nos preços: a cartela com 20 ovos custava entre R$ 8,99 e R$ 10,50 no mercado regular, mas passou a ser revendida pelos criminosos por R$ 14.
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“Nós paramos de vender ovos na loja. O resultado não conseguia mais se remunerar. Era comprar para estragar. No caso do pão, já somos obrigados a comprar a farinha com eles, mas tivemos que repassar todos os custos para o cliente”, relatou a funcionária. “O resultado se paga, mas não dá lucro qualquer, e a qualidade caiu muito. Hoje, temos uma média mensal de vendas muito inferior da que tínhamos antes, e tudo por culpa do tráfico. O preço do pão subiu muro de 200% na região. Os rumores agora são de que o próximo resultado será o alho.”
Segundo ela, a imposição começou no início deste ano. “Eles entram armados nas lojas e avisam: ‘Agora, o fornecedor de farinha de vocês somos nós’”. Quando outro caminhão tenta entrar na região, há risco de assalto.
Especialistas apontam uma “terceira vaga” do violação organizado
O promotor de Justiça Fábio Corrêa, coordenador do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública do Ministério Público do Rio, classifica o momento porquê uma novidade lanço da expansão criminosa.
“Se antes extorquiam quantia de construtoras e comerciantes, hoje atuam de outra forma: abrem os próprios negócios ou impõem que exclusivamente os produtos indicados pela partido sejam comercializados, pelos preços que eles determinam”, disse ao O Orbe. “Em muitos casos, sequer precisam recorrer a laranjas. Eles criam e administram suas próprias empresas.”
Na visão de Corrêa, trata-se da “terceira vaga” da criminalidade organizada. A primeira tempo foi marcada pelo varejo de drogas. A segunda trouxe o domínio sobre serviços clandestinos — porquê TV por assinatura, internet e transporte mútuo. Agora, o foco recai sobre segmentos tradicionais da economia.
Custos bilionários para empresas e envolvente de negócios deteriorado
Samuel Rivero, técnico em Segurança Pública da Firjan, destaca o efeito direto sobre o envolvente de negócios. “A ilegalidade representa um dispêndio relevante para o envolvente de negócios, ampliando a concorrência desleal, elevando riscos operacionais e pressionando gastos com logística, segurança e gestão de risco”, disse ao O Orbe. “Ou seja, desorganiza cadeias produtivas e reduz competitividade.”
Os números confirmam a estudo. A Firjan calcula que empresas instaladas no estado desembolsam aproximadamente R$ 9,7 bilhões por ano em despesas adicionais com segurança, seguros, logística e gestão de riscos — o equivalente a 0,7% do Resultado Interno Bruto fluminense.
Assassínio de empresário expõe monopólio criminoso da farinha de trigo
O intensidade de violência envolvido nesse controle ficou evidente com o homicídio do empresário Rafael da Silva Braga, de 43 anos, possessor de uma rede de padarias na zona oeste do Rio. Ele foi morto em março do ano pretérito, em Paciência, por criminosos em uma motocicleta, conforme investigação da Delegacia de Homicídios da Capital.
As apurações indicam que o homicídio teria sido motivado pela recusa de Braga em aderir à chamada “taxa da farinha” — mecanismo que impunha o fornecedor de trigo e determinava o preço do pão, que saltou de R$ 0,30 para R$ 0,60 por unidade. O empresário já pagava a chamada “taxa de segurança”.
A investigação da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais identificou ao menos três empresas ligadas ao violação organizado que monopolizavam a distribuição de trigo na região.
O solicitador Jefferson Ferreira detalhou porquê o esquema funcionava e chegava a provocar desabastecimento: “Eles pegaram um fornecedor pequeno e deram a ele o monopólio da distribuição. Só que começou a faltar matéria-prima, porque a demanda era muito grande.”
Quando faltavam produtos, os criminosos até permitiam a compra de outro fornecedor, mas havia uma insídia. “O problema é que, quando os caminhões chegavam para fazer a entrega, eram assaltados e as cargas, roubadas. Depois, esse material era repassado ao fornecedor ligado ao violação, que continuava revendendo a farinha e mantendo o monopólio.”
Esquema se estende a arroz, gás, tijolos e até vontade solar
Denúncias encaminhadas ao Instituto Estadual do Envolvente e investigações do Ministério Público revelam que o protótipo se espalhou para outros setores. Arroz, bebidas, cigarros, chuva mineral, botijões de gás, tijolos, areia e até serviços ligados a usinas de vontade solar já são alvos do controle criminoso.
Um morador descreveu, em relato enviado às autoridades, o envolvente de intimidação: “Estamos vivendo em um sítio onde não temos o recta de ir e vir, nem de nos expressar ou questionar as ordens impostas por eles, o que faz com que todos vivam coagidos.”
Gás de cozinha e vontade elétrica são fontes consolidadas de receita
A venda de botijões de gás segue porquê uma das principais fontes de arrecadação de facções e milícias. Em áreas dominadas da Rocinha, o botijão chega a custar R$ 170 — valor 84% superior aos R$ 92,12 pagos pelo governo às distribuidoras para abastecer famílias do programa Gás do Povo.
Há também registros de preços de R$ 150 na Muzema e de R$ 129 em áreas do Itanhangá e da Gardênia Azul. “É um contra-senso remunerar isso. Esse quantia que a gente acaba pagando a mais, porque só pode comprar deles, faz muita falta”, afirmou ao O Orbe um morador que pediu anonimato.
Outra atividade consolidada é o rapacidade de vontade elétrica. Segundo a Light, a concessionária acumula perdas superiores a R$ 1 bilhão por ano com o roubo de vontade — mais uma frente em que o violação organizado opera para lucrar às custas da população e da economia formal do Rio de Janeiro.
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