Governo prefere culpar o Congresso a comportar a própria incapacidade de negociar
Guilherme Boulos, agora ministro da Secretaria-Universal, encontrou seu vilão predilecto. O deputado Augusto Coutinho (Republicanos-PE), relator do projeto de regulamentação do trabalho por aplicativo, teria — segundo Boulos — “ofertado aos interesses das plataformas”. E por isso, o governo decidiu tirar o corpo fora.
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A história, porém, merece um olhar menos confortável para o Planalto.
A regulamentação do trabalho por aplicativo era promessa de campanha de Lula. Não de ontem — de 2022. Estamos em 2026. Três anos e meio depois, o governo não conseguiu subscrever um projeto que ele mesmo ajudou a redigir.
Mas há um pormenor.
Boulos revelou que o governo “negociou com o relator desde o início”, apresentou propostas, ouviu trabalhadores por 90 dias e aprovou a primeira versão do texto. Tudo ia muito — até que Coutinho apresentou uma segunda versão com mudanças significativas no padrão de remuneração e nas regras de transparência.
E é aí que a história complica.
O ponto de ruptura é quase cômico: R$ 8,50 contra R$ 10. Essa é a diferença que separou o governo do relator. Um piso de R$ 1,50 a mais por entrega foi suficiente para paralisar todo o processo legislativo.
Agora compare. O governo que gasta centenas de bilhões em emendas parlamentares, que irriga programas sociais com cifras astronômicas, que não pestaneja diante de qualquer oportunidade de expandir o Estado — esse mesmo governo não consegue negociar R$ 1,50 com um deputado.
A pergunta que ninguém faz é simples: se o governo tem tanta crença de que R$ 10 é o valor justo, por que não mandou seu próprio projeto para a Câmara? Coutinho, aliás, fez exatamente essa provocação: “Quero que o Guilherme Boulos mande um projeto para cá.”
Silêncio.
Em vez de trenar a iniciativa legislativa — que o Executivo tem de sobra —, o Planalto preferiu a estratégia mais confortável: deixar o Congresso trabalhar, cobrar resultados, e quando o texto não sai do jeito desejado, culpar o relator por ter “ofertado às plataformas”.
Boulos labareda isso de “cortinado de fumaça”. Irônico, vindo de quem transformou uma divergência de R$ 1,50 em delação de tomada corporativa.
E há uma questão de fundo que o governo faz questão de ignorar: o argumento de Coutinho sobre o impacto no consumidor. Aumentar o piso mínimo pode parecer generoso na tribuna, mas alguém precisa remunerar essa conta. Quando o dispêndio sobe, o preço do serviço sobe junto. Quem usa aplicativo de entrega não é rentista — é trabalhador que pede marmita porque não tem tempo de cozinhar.
O relator alertou que Boulos “vai ter que se justificar com o consumidor” se os preços subirem. É um ponto legítimo. Mas no universo do governo, questionar custos econômicos é sinônimo de tutelar plataformas.
Não é coincidência que o diferimento tenha sido anunciado por José Guimarães — ministro das Relações Institucionais — logo depois um almoço entre Lula e Hugo Motta. O tema foi empurrado “para depois”. Tradução: morreu, e ninguém quer assinar o atestado de óbito.
O padrão se repete. O governo promete, não entrega, e quando o fracasso legislativo se materializa, encontra um culpado no Congresso. A narrativa é sempre a mesma: nós queríamos proteger os trabalhadores, mas os outros não deixaram.
Motoristas e entregadores que esperavam alguma definição vão continuar no limbo — sem regulamentação, sem piso, sem transparência. Exatamente porquê estavam quando Lula fez a promessa.
A diferença é que agora o governo tem um ministro para mostrar o dedo. É pouco, mas para efeito de campanha, serve.
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