Desde setembro de 2025, a suspicácia em Lula não sai do lugar. Antes disso, chegou a 58% em março e junho daquele ano, caiu dois pontos e ali estacionou. Não melhorou. Não reagiu. Simplesmente parou.
Para quem ocupa o Palácio do Planalto, um indicador estagnado em território negativo é pior do que uma queda pontual. Queda pontual pode ser revertida. Estagnação significa que o sufragista já formou opinião — e ela não é favorável.
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Marcia Cavallari Nunes, head da Ipsos-Ipec, foi diplomática, porquê se espera de uma dirigente de instituto de pesquisa: chamou o oferecido de “ponto de atenção” e falou em “repto para a imagem e a credibilidade do governo junto à população”. Traduzindo do linguagem institucional para o português: o presidente tem um problema grave de credibilidade e não há sinais de que saiba porquê resolvê-lo.
A radiografia da suspicácia
Os números detalhados da pesquisa são reveladores — não pelo que surpreendem, mas pelo que confirmam.
Desconfiam mais de Lula:
98% dos que avaliam negativamente sua gestão;
92% dos que votaram em Bolsonaro em 2022;
78% dos que votaram branco ou nulo;
70% dos evangélicos e dos que ganham mais de 5 salários mínimos;
64% dos que têm ensino superior e dos que ganham de 2 a 5 salários mínimos;
62% dos moradores do Sudeste, dos que têm ensino médio e dos que se declaram brancos;
63% dos jovens entre 25 e 34 anos.
Confiam mais em Lula:
94% dos que avaliam positivamente a gestão;
80% dos que votaram nele em 2022;
60% dos moradores do Nordeste;
57% dos que têm somente ensino fundamental;
53% dos que ganham até 1 salário mínimo;
51% dos católicos.
O padrão é cristalino. A crédito em Lula se concentra nos estratos de menor renda e menor escolaridade, e no Nordeste. A suspicácia domina entre os mais escolarizados, os de maior renda, os moradores do Sudeste e — pormenor importante — os que votaram em branco ou nulo. Estes últimos não são bolsonaristas radicais. São eleitores que rejeitaram ambas as opções em 2022 e que, três anos e meio depois, olham para o governo e não gostam do que veem.
O sufragista que votou em branco já decidiu
Nascente é talvez o oferecido mais incômodo para o Planalto. Quando 78% dos eleitores que não escolheram nenhum dos dois candidatos em 2022 dizem não incumbir em Lula, a mensagem é inequívoca: o presidente não conseguiu invadir o meio. Não atraiu os indecisos. Não ampliou sua base. Governou para os seus — e mesmo entre os seus, a margem não é tão confortável quanto o PT gostaria de crer.
Mas há outro oferecido que merece atenção. Entre os jovens de 25 a 34 anos, a suspicácia chega a 63%. Entre os de 16 a 24, são 57%. A narrativa de que a juventude é naturalmente progressista e simpática ao lulismo não resiste ao contato com os números.
Reeleição sob suspicácia: o paradoxo petista
Lula, porquê se sabe, acredita que pode ser reeleito. E talvez possa — enfim, eleição é um jogo de alternativas, e a oposição tem seus próprios problemas. Mas tentar a reeleição com 56% de suspicácia e reprovação de metade da população não é exatamente um ponto de partida invejável.
O presidente parece apostar que a máquina pública, os programas de transferência de renda e o tempo de televisão serão suficientes para virar o cenário. É a velha aposta do incumbente: usar o poder para ressarcir a falta de credibilidade.
A pergunta que ninguém no Planalto quer responder é simples: se depois de mais de três anos no poder a maioria dos brasileiros não confia em você, o que exatamente mudaria nos próximos meses para mudar essa percepção?
A pesquisa ouviu 2.000 pessoas entre 13 e 17 de junho, por meio de entrevistas presenciais, com margem de erro de 2 pontos percentuais e nível de crédito de 95%. A Ipsos-Ipec financiou o levantamento com recursos próprios.
Números são teimosos. Não se curvam a discursos, não se impressionam com inaugurações e não respondem a acenos retóricos. Lula pode até vencer a próxima eleição. Mas governar um país que não confia em você não é governar — é somente ocupar o incumbência.
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