Auditoria do TCU revela aviões voando quase vazios, passageiros não identificados e milhões desperdiçados — tudo com moeda do tributário
O tributário brasiliano acaba de desvendar — graças ao Tribunal de Contas da União — que bancou R$ 285 milhões em voos da Força Aérea Brasileira entre janeiro de 2020 e julho de 2025. Até aí, nenhuma surpresa. Autoridades dos Três Poderes usam aeronaves oficiais. É previsto. O que não é previsto — ou pelo menos não deveria ser — é o nível de descaso com o moeda público revelado pela auditoria.
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Comecemos pelo mais escandaloso: 111 voos transportaram um único passageiro. Um. Uma avião militar, com combustível pago pelo tesouro, tripulação mobilizada, manutenção custeada pelos cofres públicos — tudo para levar uma pessoa de um ponto a outro. Alguém já ouviu falar em voo mercantil?
Aliás, o próprio TCU fez essa conta. Segundo o tribunal, o governo poderia ter economizado ao menos R$ 36,1 milhões se tivesse optado por passagens em linhas aéreas regulares em secção desses deslocamentos. Trinta e seis milhões. Jogados pela janela — literalmente, a 30 milénio pés de altitude.
Mas há um pormenor que torna tudo ainda mais grave.
Em 70% dos voos avaliados, não havia identificação adequada dos passageiros. Setenta por cento. Aviões oficiais, pagos com moeda público, levantando voo sem que se saiba recta quem está a bordo. Se um cidadão geral não consegue embarcar num voo mercantil sem apresentar documento com foto, uma vez que é verosímil que aeronaves do Estado decolem sem registro adequado de quem as ocupa?
A resposta está no próprio relatório do TCU: não existe mecanismo interno eficiente para impedir o embarque de pessoas fora das regras. O Comando da Aviação, segundo o documento, “não emite qualquer pensamento de valor acerca da motivação do requerimento de transporte”. Traduzindo do burocratês: a FAB recebe o pedido e cumpre. Sem perguntar. Sem questionar. Sem revistar.
E é aí que a história complica.
De uma modelo de 266 processos analisados pela auditoria, 25% simplesmente não foram localizados. Desapareceram. Um quarto dos registros de voos oficiais — que deveriam estar arquivados, organizados, acessíveis — evaporou. Nos que foram encontrados, faltava justificativa formal para o uso de avião militar em vez de voo mercantil.
Agora compare: quando o tópico é aumentar impostos, produzir regulações ou ampliar o pompa burocrático, o governo encontra justificativa para tudo. Para cada centavo arrancado do tributário, há um decreto, uma portaria, uma nota técnica. Mas para explicar por que um avião da FAB decolou com cinco pessoas a bordo quando havia voo da Latam no mesmo horário? Silêncio inteiro.
O número impressiona por si só: 1.585 viagens — 21% do totalidade — transportaram no supremo cinco passageiros, sendo que a menor avião da frota comporta pelo menos oito. Ocupação média inferior da metade da capacidade. Em qualquer empresa privada, isso seria motivo para deposição do gestor responsável. No Estado brasiliano, é rotina.
Diante do cenário, o plenário do TCU determinou que a Morada Social apresente, em 30 dias, um projecto de ação para revisar as regras de uso dos voos da FAB. O Comando da Aviação terá 180 dias para implementar as novas diretrizes.
A pergunta que ninguém faz é simples: por que foi preciso uma auditoria do TCU para que alguém percebesse o óbvio? Aviões voando vazios, passageiros fantasmas, processos desaparecidos e milhões desperdiçados não são falhas pontuais. São sintomas de um Estado que opera sem freio, sem controle e sem o menor constrangimento diante de quem paga a conta.
Os voos da FAB são utilizados por autoridades do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. Os três Poderes. Todos usam. Nenhum fiscaliza. E o tributário? Esse continua no assento do meio do voo mercantil — sem espaço para as pernas e sem nenhuma poder para perguntar para onde está indo o seu moeda.
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https://www.contrafatos.com.br/r-285-milhoes-em-voos-da-fab-o-descontrole-que-ninguem-queria-enxergar//Manadeira/Créditos -> INFOMONEY







