A fala do chanceler teutónico foi dura, direta, quase cruel para quem ainda insiste em crer na fantasia de país potência. Mas foi verdadeira. E verdade, no Brasil, sempre dói mais do que deveria. Quando Friedrich Merz disse em Berlim que nenhum dos jornalistas alemães quis permanecer no Brasil e que todos estavam felizes por ter voltado para a Alemanha, o incômodo não está na frase. O incômodo está na verdade que a frase traz.
O Brasil se tornou uma caricatura de si mesmo por razão dos seus próprios políticos. Uma estirpe que vive distante do povo, blindada em gabinetes, protegida por seguranças, movendo-se entre jatinhos, assessores e palácios. Uma escol institucional que olha para o país porquê quem observa um território estranho, habitado por gente descartável. O brasílio generalidade vive porquê rato em um labirinto mal planejado, tentando sobreviver aos esgotos a firmamento simples, ao transporte público sucateado, às escolas sem estrutura e aos hospitais que funcionam à base de improviso.
Enquanto isso, quem deveria ser responsabilizado pela tragédia cotidiana vive de marketing e de slogans, maquiando a miséria estrutural com campanhas coloridas, promessas recicladas e narrativas de 4 em 4 anos. O ciclo se repete porquê metástase. A cada eleição o tumor cresce, ganha novos braços, novos rostos, novas justificativas. E o corpo do país continua necrosando.
Os mesmos políticos que entregam o pior de si à população são os que correm para posar porquê vítimas quando uma sátira internacional detona o óbvio. Tentam sempre a mesma encenação patriótica: somos todos Brasil. Mas não são. Nunca foram. Quando o chanceler teutónico critica Belém, a vergonha não é da população paraense, não é do povo honesto e pagador de impostos. A vergonha é exclusivamente dos governantes que entregam, ano depois ano, indicadores de país colapsado.
Belém coleta exclusivamente tapume de 20 por cento do seu esgoto. O resto vai parar nos rios, nos igarapés e na porta das casas das famílias que vivem com renda subordinado ao mínimo. O Brasil, porquê um todo, trata menos de 50 por cento do esgoto gerado. São mais de 100 milhões de pessoas sem coleta adequada. Há escolas em que alunos estudam em contêineres, cidades em que metade das ruas não é asfaltada, hospitais onde pacientes dividem macas e esperam meses por uma consulta simples. O país investe menos de 2 por cento do PIB em infraestrutura, enquanto a média de países desenvolvidos supera os 4 por cento. Somos um território gigante com estrutura de república improvisada.
A escol política ignora esses números porque ignora a vida real. E quando confrontada com a verdade, corre para o exposição sentimental, tentando transformar sátira em ataque ao Brasil, porquê se o brasileiros e seus políticos fossem a mesma coisa. Não são. O povo carrega um fardo que não escolheu. Os políticos carregam privilégios que nunca largam.
No fundo, o país vive um estado permanente de desabrigo institucional. E o Brasil solene ensina o Brasil real a sobreviver com migalhas. É por isso que o paralelo com ‘Maior Ignorado’, uma clássica melodia de Cazuza, é inevitável. O Estado brasílio alimenta a população com raspas, sobras, migalhas dormidas do pão. E faz isso com a mesma lógica da melodia: pequenas porções de ilusão. Mentiras sinceras que interessam. Mentiras sinceras que mantêm o sistema funcionando. Mentiras sinceras que sustentam um país onde a população continua pedindo exclusivamente um pouquinho de proteção, porquê o maior despovoado.
A política brasileira transformou o cidadão em pedinte da própria região. E enquanto houver um país que aceita viver de migalhas, haverá um Estado que entrega exclusivamente raspas e sobras. É isso que o chanceler teutónico enxergou em poucos dias no Brasil. É isso que os brasileiros conhecem desde que nasceram.
O escândalo não está na fala dele. O escândalo está no veste de ele ter dito em voz subida o que o Brasil finge não ver.
Esta notícia Editorial: Não foi a Alemanha que humilhou o Brasil apareceu primeiro no Conexão Política.
Acompanhe os bastidores da política pátrio e internacional no Conexão Política.
https://www.conexaopolitica.com.br/politica/editorial-nao-foi-a-alemanha-que-humilhou-o-brasil/ / Manancial/Créditos -> Conexao Politica





