“O pavor me persegue diariamente. Vivo um traumatismo que sempre vou carregar”. A frase é da indígena Kokama, de 29 anos, que falou pela primeira vez à prelo posteriormente denunciar estupros cometidos por policiais militares e um guarda municipal enquanto esteve presa na delegacia de Santo Antônio do Içá, no interno do Amazonas.
A indígena deixou o presídio feminino de Manaus na terça-feira (29), quando passou a executar pena em regime semiliberdade por um homicídio ocorrido em 2018. Em entrevista exclusiva ao g1 e à Rede Amazônica, ela relembrou os abusos sofridos entre novembro de 2022 e agosto de 2023, quando estava detida na delegacia.
Quatro policiais militares e um guarda municipal foram presos desde que o caso veio à tona. Um quinto policial ainda está em operação em uma espaço remota e, segundo a Polícia Militar, será represado ao retornar.
Veja quem são os suspeitos e onde foram presos:
Tabatinga: Soldado Nestor Martin Ruiz Reátegui e Luiz Castro Rodrigues Júnior;
- Manaus: 1º Sargento Osiel Freitas da Silva;
- Santo Antônio do Içá: Cabo Claudemberg Lofiego Cacau e o Guarda Municipal Maurício Faba Nunes.
“Hoje em dia eu vou ter que carregar o traumatismo para sempre na minha vida. Sinto pavor das pessoas”, disse a vítima.
Em nota, a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) e a Polícia Social informaram que foi instaurado um procedimento para apurar o caso. Já a Polícia Militar afirmou que abriu um interrogatório policial militar, atualmente em período final de investigação.
A prisão ocorreu em 11 de novembro de 2022, posteriormente uma vizinha acionar a Polícia Militar por suspeita de violência doméstica entre a indígena e o companheiro.
Na delegacia de Santo Antônio do Içá, os policiais descobriram que havia um mandado de prisão em sincero contra ela, referente a uma pena por envolvimento em um homicídio ocorrido em Manaus, em 2018.
No processo ao qual a Rede Amazônica teve aproximação, a indígena foi colocada em uma cubículo com presos homens devido à falta de cubículo feminina. Foi nesse envolvente que começaram os abusos praticados pelos agentes de segurança pública. Os detentos que dividiam a cubículo com ela não participaram dos estupros.
“Diante disso, eles me colocaram em uma cubículo com homens, junto com meu fruto, que tinha unicamente 21 dias de vida. Fiquei presa lá por nove meses. Durante esse período, comecei a tolerar abusos sexuais por secção de policiais e guardas municipais. Não tive audiência de custódia. Disseram que haviam notificado a comarca de Manaus sobre minha prisão, mas, naquele momento, eu, minha mãe e minha família não sabíamos o que fazer”, lembrou a indígena.
Ela relatou ainda que os abusos começaram já na primeira noite na delegacia. Segundo a indígena, um dos sargentos denunciados entrou na cubículo e cometeu o violação enquanto ela estava com o fruto ao lado.
“Eu tinha concluído de amamentar. Ele abriu a porta da cubículo, estava bêbado, se aproximou de mim e disse que eu estava sob sua guarda e que tinha que colaborar com ele. Ele me deitou ao seu lado, perto de onde meu fruto estava. Os outros presos não disseram zero, pois tinham pavor de serem espancados, uma vez que sempre acontecia na delegacia de Santo Antônio do Içá”, contou.
Nos dias seguintes, a indígena revelou que chegou a cogitar o suicídio por não saber uma vez que evadir dos abusos e pelo pavor do que os policiais poderiam fazer.
“Eu queria finalizar com a minha vida a qualquer momento, a qualquer dispêndio. Sabia que, quando chegassem os finais de semana, à noite, teria que passar pela mesma situação e depois despertar e fingir que zero estava acontecendo naquele lugar. Não contei para ninguém porque tinha muito pavor, principalmente pela minha família que estava lá. Meu único refúgio era minha mãe. Naquele momento, eu não tinha nenhum suporte”, afirmou.
Ela permaneceu com o fruto na cubículo por dois meses, até que o bebê contraiu uma gripe e foi levado para os cuidados da mãe da indígena.
Questionada se alguma domínio presenciou a situação dela, dividindo cubículo com homens e com o fruto recém-nascido, a indígena contou que um juiz visitou a delegacia de Santo Antônio do Içá, mas afirmou que não poderia ajudá-la, pois ela respondia a um processo da comarca de Manaus.
“Teve um juiz que fez uma visitante lá. Ele estava fazendo tipo um mutirão com os presos das comarcas da região. Os presos disseram para mim, eu pedi permissão para falar com ele, e ele disse que não poderia fazer zero por mim. Que eu não era presa dele, da comarca dali. Eu era presa da Justiça de Manaus. Foram essas palavras. É revoltante tudo que aconteceu comigo naquele sítio. Eu ter ficado ali esquecida, exposta a tudo que passei durante nove meses”, relatou.
Por meio de nota, a Corregedoria-Universal de Justiça do Estado do Amazonas informou que determinou a instauração de um procedimento correcional para apuração da situação e verificação de eventual responsabilidade disciplinar de magistrados e servidores envolvidos na situação.
Medos, traumas e planos para o horizonte
Em seguida nove meses de prisão e abusos, a indígena enfrenta medos e traumas. Ela está em tratamento psicológico e psiquiátrico.
“Tenho síndrome do pânico, penso que as pessoas vão me fazer mal, sonho, às vezes tenho algumas ilusões que não são comuns para um ser humano. Muitas vezes fiquei assim, mas fui acompanhada por psicóloga e psiquiatra para poder ter controle e realizar atividades dentro do presídio”, lembrou.
Ela diz ainda que estar presa por um violação não é salvo-conduto para ser abusada por policiais.
“Sei que estava respondendo pelo violação, estou respondendo pelo violação que cometi, mas isso não dava recta para tudo que aconteceu comigo daquela forma. Eu estava sob a guarda deles, e o obrigação deles era cuidar e proteger. Eles fizeram exatamente o contrário”, contou.
Ao ser transferida para o regime de semiliberdade, ela disse estar aliviada por deixar o sítio onde sofreu os abusos e quer estrear uma novidade vida.
“Hoje me sinto muito satisfeita de estar livre daquele lugar. Nem tenho palavras para descrever a sensação que estou sentindo. Parece que nem acredito ainda que estou fora daquele presídio. Quero respirar e sentir essa liberdade, encontrar meus filhos, minha família. Por enquanto é isso”.
Tenho que sentar, pensar e colocar em prática o que quero daqui para frente: ter uma vida estabilizada, trabalhar e tentar virar todo esse quadro na minha vida”, afirmou.
Os abusos sexuais só foram denunciados em 27 de agosto de 2023, quando a indígena foi transferida para a Unidade Prisional Feminina de Manaus.
A Polícia Militar informou que abriu processos internos para apurar o caso. Três policiais e o guarda foram presos no último sábado (26) e um quarto policial foi recluso no dia seguinte, posteriormente a repercussão do caso no Jornal Vernáculo.
Os suspeitos são investigados por estupro de vulnerável, estupro qualificado e tortura.
Manancial/Créditos: G1
Créditos (Imagem de cobertura): Reprodução
https://www.aliadosbrasiloficial.com.br/noticia/indigena-que-denunciou-ter-sido-estuprada-por-pms-em-delegacia-no-am-fala-pela-primeira-vez-trauma-para-sempre/Manancial/Créditos -> Aliados Brasil Solene









