Imagine ser mulher, ter exclusivamente 18 anos de idade e assumir o comando de uma associação com 32 famílias? Acrescente a isso a responsabilidade de fazer secção da família de um dos maiores ativistas socioambientais da história do país. Foi sob essa pressão que, em 2023, a jovem seringueira Raiara Barros (foto de destaque) se tornou a primeira mulher presidente da Associação de Produtores e Produtoras Agroextrativistas do Seringal Floresta e Adjacências, na comunidade Rio Branco, município de Xapuri, Acre. Porquê missão principal, dar perpetuidade ao trabalho do pai, Raimundo Mendes de Barros, o Raimundão, e do primo dele, Chico Mendes.
“A inclusão nesse sítio de luta é quase automática. Desde moço, eu via meu pai participando das atividades e construindo tudo junto com os companheiros. Foi quando eu comecei a entender mesmo sobre o movimento do qual ele fazia secção. Comecei a participar também com muito interesse, sabendo que um dia quem estaria no lugar dele seria um dos filhos”, conta Raiara.
A jovem, que hoje tem 20 anos, diz que ainda enfrenta preconceitos e suspeição de alguns pelo gênero e pela idade, mas já coleciona vitórias importantes durante esse pouco tempo. Ela narra que a associação estava paragem há seis anos quando assumiu o missão. Passou um ano resolvendo burocracias, quitando dívidas, até conseguir retomar os trabalhos. Hoje, além de atender a demandas locais, foi construído um espaço voltado para o turismo e a geração de renda da comunidade. Caso do Ateliê da Floresta, onde são produzidos artefatos de madeira, a partir de árvores que caíram há 30 ou 40 anos. E da cozinha comunitária, que emprega um conjunto de pessoas da região.
Raiara trabalha também porquê secretária de Juventude no município de Xapuri e na coordenação do núcleo sítio do Engajamundo, associação pátrio de jovens voltada para enfrentar problemas ambientais e sociais. A jovem não nega que viveu momentos de sobrecarga nesses dois anos, por aglomerar muitas atividades e viagens.
“Teve um momento que eu cheguei a chorar bastante e a pensar: ‘Será que esse é o meu lugar? Será que eu dou conta de continuar?’ Eu passei uns três meses afastada de todo tipo de movimento. Mas não tem para onde decorrer. Cá é onde eu tenho que estar, onde eu tenho que lutar pelo meu povo”, diz Raiara. Secção dessa força vem do legado construído pela família e pela comunidade.
“A missiva que o Chico Mendes escreveu – ‘Atenção, jovem do porvir’ – fez com que eu me sentisse chamada para a luta. Ele foi e é uma grande inspiração para os jovens que fazem secção desse movimento. Também lembro de um momento com meu pai. Ele colocou uma poronga na cabeça, que é um objeto usado na cabeça para iluminar as estradas de seringa na mata, e falou para os jovens que estavam ali: ‘Que a luz dessa poronga ilumine o caminho de vocês’. Essas histórias e experiências contribuem muito para o lugar que eu estou hoje”, diz a ativista.
Dos problemas enfrentados pela comunidade atualmente, as mudanças climáticas estão entre as mais graves. Fontes de chuva e plantações secaram, e há dificuldades para prever o ciclo do plantio e das colheitas, quando faz sol e chuva. Também há o repto de engajar mais jovens da região na conservação da floresta.
“Infelizmente, a questão do agronegócio é muito impregnada no Acre. Ela é muito visibilizada, e a questão ambiental chega a ser apagada. A juventude acaba crescendo com aquela mentalidade de que quem vai trazer progresso será o rebanho e a derrubada da mata. E isso acaba afetando muito nosso movimento. Somos tão poucos”, lamenta.
Isso não impede que a jovem seja otimista sobre o porvir dessa luta. “Tenho no meu coração que uma hora a gente vai conseguir. Que a gente possa colocar na cabeça do povo a questão ambiental, a valia da resguardo da Amazônia. É lutar pela vida. Não podemos viver sem chuva, sem ar puro para a gente respirar. Queria que todos os jovens vissem o magia que é preservar as nossas florestas, viver dela e de tudo o que ela nos dá”, diz Raiara.
“O porvir da Amazônia está nas nossas mãos. Acho que é a nossa tarefa decorrer detrás e de alguma forma prorrogar o término do mundo. E não é só juventude das reservas que precisam estar nesse sítio de luta. A juventude da cidade também. Todos são afetados. Seria fundamental que todas as pessoas participassem. Se a gente continuar da forma que estamos, não tem porvir para ninguém”, complementa a jovem.
Juventude indígena
Aos 27 anos de idade, Lídia Guajajara tenta conciliar as diferentes frentes de luta de que participa. Ela é procedente do Território Indígena Arariboia, no município de Imperatriz, sul do Maranhão, mas mora atualmente em Brasília. É ativista, comunicadora e influencer. Faz secção do coletivo de notícia do Mídia Índia e da ANMIGA (Pronunciação Vernáculo das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade). Teve de dar uma pausa nos estudos de recta, para se destinar à coordenação de juventude do Ministério dos Povos Indígenas.
“Minha história começa muito dessa premência dos povos indígenas de falarem mais deles mesmos. Porque a gente sempre [vê] as pessoas contando a nossa história de forma errada. A minha ida para as redes sociais foi motivada por essa premência de levar conhecimento e reeducar a sociedade sobre as causas indígenas. Participo também de eventos e palestras. E o serviço público foi uma consequência desse meu trabalho”, explica Lídia.
A resguardo do meio envolvente e dos direitos indígenas, principalmente nas questões territoriais, é a principal bandeira que move a jovem. No serviço público, ela tem buscado ajudar na formulação de políticas públicas para os indígenas, pensadas a partir do diálogo dentro dos territórios. Juventudes de diferentes partes têm sido consultadas e há, em um horizonte próximo, a expectativa de gerar um programa voltado especificamente para a saúde mental dos jovens indígenas.
“Esse espaço é muito provocador. Muita gente aposta no ministério, mas é um processo muito lento e há questões emergenciais para resolver. Portanto, muitas coisas dependem de processos burocráticos, que nos impedem de fazer as nossas próprias ações. A gente vem de um envolvente muito dissemelhante do serviço público. Isso demanda muita coragem e nos deixa ansiosos quando não conseguimos resolver um problema, o que culpa sensação de insuficiência”, desabafa a jovem.
Lídia acredita que, mesmo com todos os obstáculos, a virilidade, o espírito armífero e os novos conhecimentos da juventude indígena são motivos de esperança no porvir.
“Nós somos a geração que pode resolver e fazer a diferença. Se a gente não se movimentar agora, impossível que outras pessoas o façam depois. Muita gente não leva a sério o que está acontecendo com a Amazônia e outros biomas. Outros acham que ativismo é voga. Mas nós somos ativistas desde crianças. Já nascemos sabendo o que precisamos tutorar, que são as florestas e os povos que vivem nela”, diz Lídia Guajajara.
A última geração
O siso de urgência move todos os que têm se devotado a tutorar a Amazônia. No ritmo das mudanças climáticas, do desmatamento, dos incêndios, da poluição, da violência contra os povos tradicionais, o tempo é pequeno. O movimento Amazônia de Pé, criado em 2022, traz essa consciência no lema “Somos a última geração que pode salvar a Amazônia”. Ele foi pensado porquê uma rede de ativistas para levar ao Congresso Vernáculo um projeto de lei para proteger florestas públicas, povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, pequenos extrativistas e unidades de conservação.
Cinquentas organizações são parceiras diretas. Além de coletar assinaturas em todo o país, o movimento organiza campanhas, festivais, conteúdos para serem divulgados nas redes sociais e nas ruas, eventos e ações culturais, além de programas pedagógicos e treinamentos voltados para ativistas climáticos e comunicadores. Programas voltados para profissionais de ensino indígena também se destacam, porquê é o caso do Amazônia de Pé nas Escolas.
Uma das idealizadoras do movimento é Karina Penha, de 28 anos, moradora de São José de Ribamar, no Maranhão, que integra a secção amazônica do estado. Ela é bióloga e desde moço dizia que tinha porquê sonho se tornar uma defensora do meio envolvente.
“Sempre fui envolvida com tarifa sociais e tive essa vivência do campo e da natureza com a minha família. E também a vivência dentro da periferia, crescendo em um território onde surgem várias inquietações”, conta Karina.
“Desde muito pequena já me considerava uma ambientalista, já tinha essa tarifa da proteção do território da Amazônia, entendendo as questões ambientais e climáticas. E no ensino médio comecei a participar mais de programas de liderança e entender a política mais sítio cá da região.”
A ativista participa da coordenação do PerifaConnection, plataforma de conexão e confluência das periferias brasileiras por meio da notícia. E faz secção do Fórum Brasiliano de Mudança do Clima. Justiça socioambiental e protagonismo dos povos tradicionais são pautas que ela tem adoptado ao longo desses anos.
“Sempre importante lembrar que a Amazônia é um território ocupado por diversos povos, que vão desde as periferias, campos, florestas , quilombos, aldeias, até os territórios urbanos. E que existem desafios muito diferentes. Portanto, quando falamos sobre nossa região, não é a partir da teoria de que outros de fora podem salvar a Amazônia, mas que a própria população procura salvar também o seu modo de vida”, diz Karina.
Para conseguir e engajar cada vez mais pessoas, a bióloga acredita que é fundamental pensar em estratégias de notícia que deem conta das particularidades de cada comunidade, uma vez que os impactos climáticos não são os mesmos em todas as regiões e grupos sociais.
“Para muitos, as mudanças climáticas não parecem ser um pouco muito palpável ainda. Tem outras coisas mais concretas, porquê lazeira e o temor da violência. Coisas que se mostram mais urgentes no dia a dia. Mas acho que nos últimos anos temos conseguido prosseguir, falar sobre racismo ambiental, por exemplo, e mostrar que o nosso território está mudando e que nossa vida vai ser muito afetada pelo clima”, diz.
“Também tem a questão de porquê a gente conversa com as pessoas. Se você passa a imagem negativa de que não tem mais porvir, que tudo está perdido e não tem mais o que fazer, não engaja. Aqueles que já estão acostumados a passar por muitos problemas não vão ser mobilizados por isso, não muda em zero a perspectiva já difícil de vida deles. Faz mais sentido trazer a teoria positiva de que a gente tem o recta de viver muito, de ter chegada ao meio envolvente e aos benefícios sociais. E que precisamos cobrar nossos direitos”, ensina a ativista.
Para Karina, em 2025, há uma oportunidade única de mobilizar as pessoas sobre o tema, por culpa da 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30), que será realizada em Belém, em novembro.
“Para quem está mais na risco de frente da luta e acompanha esses espaços de negociação, sempre se sente muito malogrado quando percebe que não há muitos avanços. Quando lê notícias ou relatórios sobre o clima não tem reações muito animadoras. Mas eu acho que o equilibra um pouco isso é esse trabalho da sociedade social em várias regiões, ver que a gente tem feito muito e criado soluções muito efetivas dentro das nossas possibilidades”, reflete Karina.
“É isso que nos permite continuar sonhando, não perder a esperança. Eu sei que tem gente mais pessimista, em privativo quem trabalha com dados diretamente. E não julgo, porque realmente as notícias são muito alarmantes. Mas precisamos continuar acreditando que a gente pode fazer a diferença, senão o nosso trabalho e a nossa vida não valem muito a pena.”
Série sobre a Amazônia
A reportagem faz secção da série Trilhas Amazônicas, que abre o ano da COP30. Nas matérias publicadas na Escritório Brasil, povos da Amazônia e aqueles diretamente engajados na resguardo da floresta discutem os impactos das mudanças climáticas e respostas para mourejar com elas.
*A equipe viajou a invitação da CCR, patrocinadora do TEDxAmazônia 2024.