Quando a política externa vira instrumento de recado doméstico, o país encolhe.
Lula resolveu transformar um impasse diplomático em espetáculo político. E fez isso do jeito mais revelador verosímil: assumindo, em rossio pública, que revogou o visto de um assessor ligado a Donald Trump porquê resposta ao bloqueio de vistos de Alexandre Padilha e de sua família nos Estados Unidos.
É grave.
Não pelo nome do assessor. Não pela biografia de Darren Beattie. Mas pelo método.
Um presidente da República não pode agir porquê comentarista revoltado de rede social. Muito menos quando trata de ingressão de estrangeiros no país. Visto não é bilhete de desaforo. Política externa não é revanche de tribuna. Estado não é brinquedo de ocasião.
Lula disse que Beattie só poderá entrar no Brasil quando o visto de Padilha for liberado nos Estados Unidos. Traduzindo: a régua deixou de ser institucional e passou a ser pessoal. É a diplomacia do “mexeu com um dos meus, eu revogo o seu”. Parece grande gesto. Na verdade, é apequenamento.
Mas há um pormenor.
A decisão de Lula contrasta com a de Alexandre de Moraes por um motivo curioso. Moraes negou a visitante com linguagem institucional, ancorando-se no argumento de que o encontro não se inseria no contexto diplomático do visto e que a visitante não havia sido comunicada previamente às autoridades brasileiras. Pode-se discutir o valor. Pode-se questionar a flexibilidade do argumento. Mas havia, ao menos formalmente, um despacho jurídico.
Lula foi por outro caminho. Preferiu verbalizar a motivação política sem qualquer pudor. Disse claramente que proibiu a ingressão do assessor americano enquanto não houver liberação para Padilha. Ou seja: onde Moraes tentou vestir toga, Lula apareceu de manga arregaçada, deixando explícito o uso político do instrumento estatal.
E é aí que a história complica.
Porque o governo e seus aliados passaram anos condenando qualquer hipótese de politização institucional, seletividade e uso de estruturas de Estado para fins de pressão. Agora, quando a conveniência bate à porta, o exposição muda de roupa. De repente, revogar visto por retaliação vira gesto de soberania. Desde quando?
Agora compare.
Quando autoridades estrangeiras fazem declarações sobre o Brasil, o Itamaraty costuma reagir em nome da não ingerência. Quando o personagem tem relação com Bolsonaro, a sensibilidade institucional sobe de temperatura em segundos. O argumento usado contra a visitante de Beattie foi justamente o risco de “indevida ingerência nos assuntos internos do Estado brasiliano”. Muito muito. Mas a pergunta incômoda é inevitável: esse zelo vale para todos ou só aparece quando a visitante tem endereço politicamente inconveniente?
Porque, convenhamos, a frase “ingerência indevida” no Brasil anda cada vez mais elástica. Serve para muita coisa. Serve para reprochar sátira. Serve para blindar autoridades. Serve para empacotar desconforto político com papel de presente institucional. O problema é que, quando tudo vira ameaço à soberania, zero mais é soberania de vestimenta. Vira pretexto.
Outro ponto labareda atenção.
Bolsonaro está recluso, cumpre pena e teve a visitante negada por decisão judicial. Esse é o vestimenta. Mas a reação do governo mostra que o incômodo não era somente com a visitante. Era com o simbolismo da visitante. Um assessor ligado a Trump indo ao encontro de Bolsonaro produziria imagem, narrativa, repercussão. E Brasília sabe o peso disso. A resposta veio no velho linguagem do poder: bloquear antes que a cena exista.
Só que isso ofídio preço.
No projecto extrínseco, o Brasil transmite a mensagem de que decisões migratórias podem ser manipuladas ao sabor de disputas políticas. No projecto interno, reforça a percepção de que as instituições já não operam com critérios claros, e sim com critérios úteis. E no projecto retórico, entrega à oposição um presente vasqueiro: a prova verbal de que o governo usa instrumentos de Estado porquê mecanismo de retaliação.
Não deixa de ser irônico.
Os mesmos setores que tantas vezes acusaram Bolsonaro de confundir governo com vontade pessoal agora assistem Lula fazer exatamente isso — com ovação de secção da plateia. Quando é o opoente, chama-se ataque. Quando é o coligado, chama-se resguardo da democracia. Essa é a novidade gramática moral de Brasília: depende do CPF ideológico do responsável.
E há ainda a figura de Padilha no núcleo do enredo, apresentado por Lula porquê alguém “protegido” pelo presidente. A frase é politicamente desastrosa. Presidente protege cidadão com lei, com diplomacia séria, com reciprocidade institucional muito fundamentada. Não com fanfarronada personalizada em microfone. Soa menos porquê ato de Estado e mais porquê mostra pública de lealdade de grupo.
No fundo, o incidente expõe uma verdade repugnante: o Brasil solene já não tenta nem esconder a mistura entre interesse institucional e conveniência política. Quando Moraes barra a visitante, usa o léxico da formalidade. Quando Lula revoga o visto, usa a linguagem da revanche. Um fecha com chancela. O outro anuncia com orgulho. Ambos ajudam a inventar o mesmo envolvente: o de um país em que a exceção virou rotina e a justificativa depende sempre de quem está sendo atingido.
A pergunta final é simples. Se o critério agora é retaliar adversários e seus interlocutores com a máquina do Estado, em nome de qual princípio exatamente o governo ainda se diz dissemelhante?
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